Para muita gente, fazer 18 anos é motivo de festa. Tirar a carteira de motorista, votar, ganhar um pouco mais de liberdade. Mas, para a maioria, a vida adulta chega aos poucos. A família continua por perto, ajuda com o aluguel, empresta dinheiro, oferece um quarto quando as coisas apertam.
Para um adolescente que vive numa casa de acolhimento, a história pode ser bem diferente. Neste texto, explicamos o que acontece nessa passagem e por que ela merece atenção de todos nós.
Por que alguns jovens completam 18 anos no acolhimento
O acolhimento institucional é uma medida provisória. O objetivo é que a criança volte para a família de origem ou, quando isso não é possível, seja encaminhada para uma família substituta, por exemplo pela adoção.
Só que nem sempre esses caminhos se concretizam. Às vezes a volta para casa não é segura. E, para muitos adolescentes, as chances de adoção são pequenas, pela dificuldade de encontrar famílias dispostas a recebê-los. Assim, parte deles acaba atingindo a maioridade dentro do serviço de acolhimento. Nesse momento, o desligamento é obrigatório.
Uma saída que deveria ser preparada
O Estatuto da Criança e do Adolescente, no artigo 92, inclui entre os princípios das casas de acolhimento a preparação gradativa para o desligamento. Ou seja, a saída não deveria ser um susto, e sim o fim de um processo construído com tempo.
As Orientações Técnicas para Serviços de Acolhimento, do CNAS e do CONANDA, detalham esse cuidado. Para adolescentes com poucas chances de voltar para a família ou de ser adotados, elas recomendam um trabalho voltado a:
- criar e fortalecer laços com a comunidade;
- ampliar o acesso à educação;
- oferecer qualificação profissional e caminhos para o primeiro emprego, como aprendiz;
- desenvolver aos poucos a autonomia para cuidar de si e assumir responsabilidades;
- ajudar o jovem a construir um projeto de vida.
O documento também diz que a saída não deve ser vista como um momento único. Ela é o resultado de um processo contínuo de desenvolvimento da autonomia.
As repúblicas: uma ponte que ainda é estreita
Para apoiar quem completa 18 anos sem ter para onde ir, as Orientações Técnicas preveem as repúblicas. São moradias para jovens de 18 a 21 anos, com supervisão técnica, que funcionam como transição entre o acolhimento e a vida independente. Ali o jovem aprende a administrar a casa, as contas e a rotina, com apoio por perto.
O problema é que ainda existem poucas. Um termo de referência publicado em 2026 pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em parceria com o PNUD, cita dados do Censo SUAS de 2023. Naquele ano, havia 81 repúblicas no Brasil, distribuídas em 43 municípios e no Distrito Federal, em apenas 14 unidades da federação. Juntas, ofereciam 598 vagas.
O mesmo documento traz um dado ainda mais preocupante. Segundo pesquisas citadas pelo ministério, sabia-se o destino de menos de 15% dos jovens desligados do acolhimento por terem completado 18 anos. Ou seja, a grande maioria segue a vida sem que o sistema saiba como ela está.
Os riscos de uma saída sem apoio
O termo de referência do ministério reconhece que essa transição acontece, em muitos casos, de forma abrupta e sem preparo. Isso expõe os jovens a riscos maiores de desemprego, de rompimento de vínculos, de violência e até de situação de rua.
Imagine começar a vida adulta sem fiador para alugar um quarto, sem alguém para ligar numa emergência e sem uma reserva de dinheiro. É esse o desafio de muitos jovens que crescem em acolhimento.
O que está mudando
Há sinais de avanço. Segundo o mesmo documento, o novo Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, para 2025 a 2035, aprovado em dezembro de 2025, colocou o apoio aos jovens depois dos 18 anos como prioridade estratégica. O plano orienta a criação de uma política que una moradia, renda, saúde mental, educação e trabalho, com transição planejada para a vida adulta.
Mas planos levam tempo para virar realidade nos bairros. Enquanto isso, a sociedade pode fazer muito.
Como a comunidade pode ajudar
Nenhuma política substitui uma rede de pessoas. E é aqui que você entra. Algumas formas de apoiar adolescentes que se aproximam da maioridade:
- Educação. Doações que garantem material, transporte e cursos ajudam a completar os estudos.
- Trabalho. Empresas podem abrir vagas de aprendiz e de primeiro emprego, com acompanhamento.
- Conhecimento. Profissionais voluntários podem ensinar a fazer um currículo, abrir conta em banco ou organizar o orçamento.
- Vínculos. O apadrinhamento afetivo, feito pelos programas oficiais, cria laços que continuam depois da saída da casa.
A PROHACC e o futuro dos adolescentes
A PROHACC acolhe cerca de 18 crianças e adolescentes em Perus, São Paulo, desde 1997, sem convênio com o governo. Em toda casa de acolhimento, cuidar bem do presente é também preparar o futuro de quem um dia vai sair dela.
Apoiar uma casa de acolhimento é ajudar a manter a rotina e os cuidados que, passo a passo, constroem a autonomia. Veja como apoiar na página Como ajudar.
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Fontes
- Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990, art. 92, inciso VIII: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
- CNAS e CONANDA. Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, 2009, itens 3.5.7, 3.5.8 e 4.4, pp. 53 a 55 e 85 (cópia hospedada pelo TJDFT): https://www.tjdft.jus.br/informacoes/infancia-e-juventude/informacoes/informacoes/instituicoes-de-acolhimento-1/orientacoes_tecnicas.pdf
- Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e PNUD. Termo de Referência, Edital de Convocação 01/2026, Projeto BRA/18/024, item 6 (Censo SUAS 2023 e PNCFC 2025 a 2035): https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/cooperacao-internacional/editais/editais-2026./BRA18024_EditaldeConvocao_01_2026.pdf
