Existe um ditado conhecido que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Ele faz sentido para qualquer família. E faz ainda mais sentido para uma casa de acolhimento, onde crianças e adolescentes vivem longe da família por um tempo e precisam de muita gente ao redor para crescer bem.
Neste texto, mostramos por que a comunidade é parte essencial do cuidado e como cada pessoa do bairro, e de fora dele, pode participar.
A lei chama a comunidade para a responsabilidade
O Estatuto da Criança e do Adolescente é direto no artigo 4º. Garantir os direitos das crianças, com prioridade absoluta, é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público. A comunidade aparece logo depois da família.
Isso quer dizer que proteger uma criança não é tarefa só do Conselho Tutelar, da Justiça ou da casa de acolhimento. É também do vizinho, da professora, do dono da padaria, do time de futebol do bairro e de quem está lendo este texto.
Acolhimento não é isolamento
A ideia de um abrigo fechado, com escola, médico e lazer dentro dos próprios muros, não combina com as regras de hoje.
As Orientações Técnicas para Serviços de Acolhimento, do CNAS e do CONANDA, dizem que o acolhimento não pode significar a perda do direito à convivência comunitária. Por isso, recomendam que:
- a casa fique em área residencial, perto do contexto de origem das crianças;
- as crianças continuem, sempre que possível, na mesma escola e nas atividades que já faziam;
- usem os postos de saúde, escolas, praças e centros culturais do bairro, como qualquer outra criança;
- participem das festas e eventos da comunidade;
- possam receber colegas em casa e ir a festas de aniversário de amigos da escola.
O documento também pede atenção para evitar que essas crianças sejam marcadas como diferentes. Nada de uniformes ou veículos com identificação. Elas devem circular pelo bairro como as outras da mesma idade.
Por que isso importa tanto
Crianças acolhidas já passaram pelo afastamento da família. Se, além disso, perdessem os amigos, a escola e o bairro, o sofrimento seria ainda maior. Manter esses laços ajuda a preservar a identidade e a história de cada uma.
Há também um efeito para o futuro. As atividades e amizades do bairro continuam depois que a criança volta para a família ou segue para a vida adulta. A comunidade se torna uma rede de apoio que permanece.
A comunidade já ajuda, e quer ajudar mais
Os brasileiros têm uma relação forte com o lugar onde vivem. Na pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, do IDIS com o Datafolha, 92% dos voluntários disseram gostar de doar parte do seu tempo para ajudar pessoas da comunidade. Famílias e comunidades aparecem entre os públicos mais atendidos, citadas por 35% dos voluntários.
Isso mostra que a vontade existe. O que falta, muitas vezes, é saber por onde começar.
Como a comunidade pode apoiar uma casa de acolhimento
Cada parte do bairro tem algo a oferecer. Algumas ideias:
- Comércio local. Doar alimentos, produtos de limpeza ou serviços, ou fazer uma campanha de arrecadação com os clientes.
- Escolas. Organizar campanhas com os alunos e ajudar a combater qualquer forma de preconceito contra crianças acolhidas.
- Igrejas e grupos religiosos. Mobilizar doações regulares e voluntários, em combinação com a equipe da casa.
- Profissionais do bairro. Oferecer o próprio trabalho, como reparos, cortes de cabelo, aulas ou consultoria.
- Vizinhos. Respeitar a privacidade da casa, não fotografar as crianças e acolhê-las como parte da vizinhança.
- Quem mora longe. Doar por PIX, compartilhar campanhas confiáveis e apresentar a causa para amigos e empresas.
Toda doação de itens funciona melhor quando é combinada antes. Assim, a ajuda chega no que realmente está faltando.
Perus e a PROHACC
A PROHACC está em Perus, bairro da cidade de São Paulo, desde 1997. Hoje cuida de cerca de 18 crianças e adolescentes, sem convênio com o governo. A comunidade já participa de muitas formas. Em março de 2021, a casa promoveu uma macarronada beneficente, com retirada na própria PROHACC. Em setembro de 2022, foi a vez da primeira pizza beneficente. E, em setembro de 2021, agradeceu publicamente a todos que ajudam, lembrando que recebe doações em dinheiro de qualquer valor e também mantimentos, leite, fraldas e itens de higiene.
Você também pode ser parte dela, more perto ou longe. Veja todas as formas de ajudar na página Como ajudar. Juntos, cuidamos melhor.
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Fontes
- Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990, arts. 4º e 92, inciso VII: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
- CNAS e CONANDA. Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, 2009, item 3.5.6, pp. 50 e 51 (cópia hospedada pelo TJDFT): https://www.tjdft.jus.br/informacoes/infancia-e-juventude/informacoes/informacoes/instituicoes-de-acolhimento-1/orientacoes_tecnicas.pdf
- IDIS e Instituto Datafolha. Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, livro digital, 2022: https://www.idis.org.br/en/wp-content/uploads/sites/3/2022/10/Livro-Digital-Voluntariado-no-Brasil-ENGLISH_2022.pdf
- PROHACC no Instagram (@prohacccasa), post de 08/03/2021, macarronada beneficente: https://www.instagram.com/p/CMKLsiHA6ep/
- PROHACC no Instagram (@prohacccasa), post de 01/09/2021, agradecimento aos apoiadores: https://www.instagram.com/p/CTRzXxrrNc-/
- PROHACC no Instagram (@prohacccasa), post de 13/08/2022, pizza beneficente: https://www.instagram.com/p/ChNC5C3Arf7/
